Esta é para deixar pais e especialistas de cabelo em pé: a obesidade infantil aumentou cinco vezes nos últimos 20 anos e hoje atinge cerca de 15% dos baixinhos brasileiros, ou cerca de 5 milhões de crianças (veja a reportagem da página 10). Quem garante é a Sociedade de Pediatria de São Paulo. Dados do gênero explicam por que todos apontam o dedo em riste para a dobradinha hambúrguer e batata frita, ícones da chamada comida trash, que a garotada devora num piscar de olhos. A boa notícia é que uma luz de esperança começa a brilhar nesse cenário tão sombrio.
Em resposta à acusação, o cardápio dessas fábricas de delícias gordurosas está abrindo espaço para itens praticamente impensáveis há alguns anos, como saladas, sucos, grelhados, queijinhos e até frutas. O movimento é mais forte nos Estados Unidos, mas felizmente a tendência já está desembarcando por aqui, mesmo que timidamente. “Devido aos altos índices de obesidade e de doenças crônicas, essa providência, mais do que desejável, é necessária”, opina a nutricionista Bianca Chimenti, da Nutrociência, em São Paulo. É um começo, mas, segundo a especialista, ainda não é o suficiente. “Precisamos de campanhas de educação alimentar para pais e filhos”, diz Bianca.
Tem novidade no cardápio
As combinações, que antes não fugiam muito do monótono trio sanduíche, batata frita e refrigerante, ganharam alternativas. As mudanças mais significativas foram, sem dúvida nenhuma, as do McDonald’s. Depois de oferecer sucos nos sabores laranja e maracujá para substituir os refrigerantes, a rede abriu o leque de opções. Os mais recentes itens são o queijinho do tipo petit suisse, a maçã, o achocolatado, o queijo com goiabada, o cereal de milho com açúcar e a água-de-coco. Aliás, este último, segundo Daniel Arantes, executivo de marketing da empresa no Brasil, tem sido um dos mais solicitados pelos pais. Sinal de que a marca está no caminho certo e de que os consumidores aprovam as novidades.
Na lanterninha, as concorrentes ainda têm muito o que mudar para se aproximar da líder do mercado. No Burger King, que chegou há pouco tempo ao país, o Bkids, uma das opções do cardápio infantil, oferece chá gelado como alternativa para o refrigerante. E só. O Habib’s, especializado em comida árabe, tem sucos como companheiros das indefectíveis esfihas — e olhe lá.
Já as redes Bob’s e Giraffas não se mexeram. As crianças não têm outra saída a não ser se refestelar com sanduíches, frango empanado e batata frita regados a litros de refrigerantes. E cá pra nós, é disso mesmo que elas gostam. Em outras palavras, as novidades saudáveis agradam mais aos pais.
É proibido proibir
Vamos ser francos. Não dá para riscar da vida dos filhos os sanduíches e os milk shakes. Fazer isso seria também priválos do convívio social, porque se tem um programa que a garotada adora é ir com a turma à lanchonete. “Em vez de proibir, o melhor é controlar esse tipo de alimento”, argumenta Fábio Ancona Lopez, professor titular do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Por serem muito gordurosas e pobres em fibras, vitaminas e minerais, o ideal é que essas comidas sejam consumidas uma ou duas vezes por mês”, sugere.
Considere ainda que os lanches engordativos às vezes equivalem a mais de um quarto da necessidade calórica de uma criança de 10 anos. Então, não deixe por menos: McDonald’s e congêneres têm que substituir uma refeição — e não serem encaradas como o “lanchinho” da tarde. E, se o almoço foi em fast-food, o jantar, seja onde for, tem que ter algo bem mais leve — peixe ou frango, saladas e frutas.
Poder pode, mas...
Tem razão, as crianças às vezes vencem pelo cansaço. Para o bem delas, resista, explique, eduque. A nutricionista Tânia Rodrigues, da RG Nutri Consultoria Nutricional, em São Paulo, ensina o caminho das pedras
1. Lanchonete todos os dias, só em sonhos. Deixe isso muito claro.
2. Sugira lanches sem muito recheio, como o cheeseburguer ou o cheese-salada. Se puder, suma com a maionese, muito rica em gordura. O cachorro-quente é uma boa pedida, desde que venha com pouco acompanhamento.
3. Uma generosa porção de fritas pode perfeitamente ser compartilhada por duas ou três pessoas. Não precisa mais do que isso para matar a vontade.
4. Se o pequeno insistir no refrigerante, tudo bem. Mas proponha substituí-lo por suco de frutas ou água.
5. Outra troca justa: a maionese pelo trio ketchup, mostarda e picles para incrementar o sanduíche.
6. É milk-shake ou batata frita. Ambos é overdose de calorias.
Burger King
BKids, com 660 calorias
O que oferece: hambúrger (310 calorias), batata frita (230 calorias) e chá Nestea (120 calorias)
Recém-chegada ao país, esta que é uma das maiores redes dos Estados Unidos trouxe um cardápio bastante calórico e tradicional para os baixinhos. “Só o chá é melhor do que o refrigerante”, avalia a nutricionista Bianca Chimenti, da Nutrociência Assessoria em Nutrologia, de São Paulo. Por ser frita em grande quantidade de óleo, a grande vilã do trio é a batata.
Habib’s
Kit Habib’s, com 790 calorias
O que oferece: esfiha de frango (140 calorias), esfiha de queijo (190 calorias), batata frita (320 calorias) e suco de laranja (140 calorias).
“Boa fonte de proteína, a esfiha de frango apresenta menos gorduras e calorias. Já a de queijo, apesar de mais gordurosa, é uma boa fonte de cálcio”, observa Bianca Chimenti. Quanto ao item bebida, ponto para o Habib’s: apenas sucos. Mas o inimigo continua lá, intocável. “O ideal seria trocar a batata frita por outra esfiha ou pedir uma salada, como o tabule”, arremata Bianca.
Giraffas
Giralanche, com 739 calorias
O que oferece: franguinho (521 calorias), batata frita (90 calorias) e refrigerante de 300 ml(120 calorias)
“O sanduíche de frango com salada é um pouco mais equilibrado”, aponta a nutricionista Suzana Franciscato, de Bauru. Mas a maionese, a batata frita e refrigerante comprometem a equipe. “Uma refeição que fornece mais de um terço das 1 800 calorias diárias recomendadas para uma criança deve ser consumida preferencialmente na hora do almoço”, completa. E cuidado com a freqüência: no máximo uma vez por semana.
Bob’s
Trikids, com 620 calorias*
O que oferece: hambúrguer (262 calorias), batata frita (cerca de 240 calorias) e refrigerante de 300 ml (120 calorias)
A lanchonete anda na contramão e não oferece saída para os pais que buscam algo mais saudável. “Todos os sanduíches possuem muita gordura, além de poucas fibras e vitaminas”, reclama a nutricionista Suzana Janson Franciscato. Além disso, não existem sucos nem alternativas para as batatas fritas. O ideal é fazer uma refeição como essa eventualmente duas vezes por mês, no máximo.
*Até o fechamento da edição o Bob’s não forneceu a quantidade de calorias de sua porção de batata frita.
Fonte de energia
A tabela abaixo mostra a quantidade ideal de calorias para cada faixa etária.
| Idade |
Sexo |
Energia (cal) |
| 0 - 0,5 |
|
650 |
| 0,5 - 1 |
|
850 |
| 1 - 3 |
|
1 300 |
| 4 - 6 |
|
1 800 |
| 7 10 |
|
2 000 |
| 11 14 |
F |
2 200 |
| 11 14 |
M |
2 500 |