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O elo entre a sua saúde, no sentido mais global, e o bom funcionamento da víscera de 9 metros acomodada na cavidade do abdômen é mais estreito do que se imaginava. Prova disso é um novíssimo e polêmico estudo publicado no periódico americano Hepatology. O trabalho associa a presença de bactérias maléficas no intestino ao acúmulo de gordura no fígado — doença conhecida como esteatose e que, com o tempo, pode levá-lo à falência.
A notícia, como tudo o que é novidade na medicina, foi recebida com cautela. “Não conheço outros trabalhos que estabeleçam essa relação”, comenta o gastroenterologista Elinton Chaim, da Universidade Estadual de Campinas, no interior paulista. De fato, o mecanismo por trás dessa ligação não foi elucidado pelos autores, que são da Universidade Católica de Roma, na Itália. Por outro lado, o trabalho não é a única evidência de reflexos do intestino em outras partes do corpo.
As últimas pesquisas sugerem que quando o órgão está mal multiplica-se o risco de alguém ficar obeso e sofrer de enxaqueca. Sem falar na sua influência sobre articulações, ossos e processos infecciosos. Não faltam motivos para você cuidar dele com carinho.
“De todas as regiões do organismo, o tubo digestivo é o que mais sofre influência das emoções”, sentencia o gastroenterologista Carlos de Barros Mott, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Isso explica por que uma crise nervosa é capaz de nos mandar imediatamente ao banheiro. A dúvida é se o caminho inverso, isto é, o intestino liberando substâncias para agir no cérebro, também seria possível. Médicos da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, registraram um aumento de 40% no risco de depressão entre pacientes com síndrome do intestino irritável, doença que atinge até um quinto da população do globo.
Segundo os pesquisadores, haveria uma incidência maior ainda de enxaqueca e dores crônicas nesses indivíduos. “Substâncias produzidas no intestino, como a serotonina e a colecistoquinina, também desempenham funções no cérebro”, diz Wilson Catapani, gastro da Universidade do ABC, na Grande São Paulo. “Isso explicaria associações entre fenômenos cerebrais e intestinais, constituindo o que se chama eixo cérebro-intestinal”, acrescenta. “De qualquer forma, não podemos falar que exista uma relação simplista de causa e efeito.”
A microbiota, nome técnico para as inúmeras bactérias que vivem principalmente no intestino grosso, é um show à parte. “Os microorganismos benéficos são extremamente importantes para evitar infecções por bactérias maléficas”, enfatiza Jacqueline Alvarez-Leite, gastroenterologista e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais. Além disso, fermentam nutrientes que não foram absorvidos no intestino delgado e os transformam em compostos que, entre outras funções, servem de combustível para as células do cólon.
O desequilíbrio dessa flora — ou seja, quando ela tem menos bactérias do bem e mais das ruins — seria fator de risco para acúmulo de gordura. “No futuro, mudar a composição da microbiota será uma opção para tratar a obesidade”, acredita o pesquisador Husen Zhang, da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos. A verdade é que, por trás da nobre missão de absorver nutrientes e eliminar todo o resto, o intestino acumula uma série de outras tarefas essenciais para o funcionamento das nossas engrenagens. Portanto, trate de respeitar o seu.

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