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A vida depende da criatividade — seja para encontrar um jeito melhor de fazer determinado trabalho, para escrever uma obra-prima, seja, voilà, para criar um remédio. Recentemente, a virologista americana Beatrice Hanh, que se dedica ao estudo da aids, disse que pensar fora da caixa é sempre uma boa pedida. Beatrice, que é da Universidade do Alabama, se referia à descoberta de uma nova técnica de combate à doença. Em vez de usarem o sistema de defesa do organismo, muito comprometido pelo vírus HIV, os pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia apelaram para as células musculares a fim de estimulá-las a produzir anticorpos. Deu certo. Embora ainda não seja a cura do mal, a descoberta foi vista como promissora. E, sem uma bela parcela de imaginação, nada teria acontecido. Esse desfocar, como defi- niu Beatrice, percorre novas áreas do cérebro, assopra a poeira dos pensamentos guardados no inconsciente e, eureca!, joga luz sobre respostas.
Para confirmar a tese, eis que surge um estudo da Universidade British Columbia, no Canadá. Por meio de imagens de ressonância magnética, a professora Kalina Christoff, do Departamento de Psicologia da instituição, provou que o cérebro está bem mais ativo durante o devaneio do que se imaginava. A pesquisa, publicada na revista científica americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), comparou esse estado a um momento de raciocínio lógico.
“Se a gente pensa, por exemplo, nos sabores da Toscana, a área da massa cinzenta ligada ao paladar ficará mais vibrante. Assim como, se mergulha na lembrança do beijo da pessoa amada, o setor da sensação tátil é alimentado”, comenta Fernando Cendes, especialista em neuroimagem da Universidade Estadual de Campinas, no interior paulista. E, como todo tipo de divagação envolve sempre a área da memória, as redes neurais ligadas às lembranças se mostraram mais ativadas do que aquelas relacionadas a tarefas rotineiras, como digitar um texto no computador. Conclusão: distrair-se não é só coisa de gente preguiçosa ou lunática. Pode ser o caminho certo para resolver um problema.
O mérito do devaneio vai longe. Ao flexibilizar o pensamento, fomenta novas conexões entre as células nervosas — é o que os cientistas chamam de sinapse silente, que faz aqueles neurônios de mãos dadas, porém parados, passarem a funcionar na maior animação. Essa ginástica cerebral, que tanto contribui para a criatividade, possibilita um ensaio para grandes decisões. Sigmund Freud (1856-1939), o criador da psicanálise, disse o seguinte a respeito desse treino mental: “Você pode engatar em ações sem nenhuma consequência. Pode imaginar-se ridicularizando seu professor ou dando uma surra no seu chefe, sem pretender, de fato, fazer isso”.
O benefício para a alma, brincadeiras à parte, é imenso. E o corpo não fica atrás. “Sonhar acordado é nada menos do que essencial para a sobrevivência”, defende o psicólogo especializado em neuroendocrinologia Esdras Vasconcellos, da Universidade de São Paulo. “Sem esse momento de dispersão, o cotidiano fica frio, concreto e racional demais. E a mente não dá conta. A consequência pode ser a erupção de um transtorno como o pânico”, alerta.
Desfecho assim tem explicação fisiológica. A fantasia brota no sistema límbico, região do sistema nervoso responsável pelas imagens e emoções. Sobre ele há o córtex, que cuida da consciência e do raciocínio. No início dos tempos, quando os homens não tinham essa região totalmente desenvolvida, falávamos por meio de sinais. Essa continua sendo a estrutura básica da massa cinzenta. Veja, então, o esforço que fazemos para impor a razão sobre a imagem e o sentimento. “Isso causa grande estresse ao cérebro. No sono há uma descarga dessas impressões reprimidas. Só que não é suficiente. Precisamos sonhar acordado para um melhor saneamento mental”, explica Vasconcellos. Sem essa drenagem, o corpo pode transbordar em medo.
Esse é um dos motivos pelos quais é importante parar e deixar a mente extravasar. “Chega uma hora em que é necessário limpar a caixa postal do cérebro. Não há espaço para tantas informações que captamos durante o dia”, diz a pesquisadora Sílvia Cardoso, diretora do Instituto Edumed, um centro de neurociências de Campinas.
Se aproveitamos esse recreio fantasioso e pensamos em coisas boas, estamos, então, enviando prazer à mente. O lado biológico — e bom — da história é que poupa-se o corpo de um desgaste. “O sistema límbico dá o estímulo para o hipotálamo comandar a regulação de hormônios”, explica Sílvia. “Paralelamente há uma interrupção dos fatores desencadeantes do estresse, como os hormônios cortisol e adrenalina, que prejudicam a imunidade e causam doenças.” Sem contar numa enxurrada de substâncias que levam ao relaxamento, como dopamina, endorfina e acetilcolina.
Tudo que imaginamos tem um impacto importante sobre o organismo. A psico-oncologia, disciplina que dá apoio psicológico aos pacientes com câncer, consegue ótimos resultados quando sugere a esses pacientes que visualizem as células de defesa destruindo as cancerosas, como num filme. Assim caminha a humanidade também. Basta lembrarse de líderes como o ativista americano Martin Luther King (1929-1968), que organizou a mais contundente reivindicação pelos direitos civis dos negros com seu discurso: “Eu tenho um sonho”.

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