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Na barriga da mãe

As imagens de ultra-som permitem ver o bebê em detalhes. E, se ele estiver correndo risco de vida, pode ser salvo antes mesmo de vir ao mundo – eis a maior conquista da medicina fetal

por CIDA DE OLIVEIRA
fotos DERCÍLIO

Guiados pelos borrões que eram as imagens precárias do aparelho de ultra-som existente no início dos anos 1980, os médicos da equipe do obstetra francês Fernand Daffos introduziram uma fina agulha no abdome de uma gestante. Sem desviar 1 milímetro, ela chegou ao alvo: espetou o cordão umbilical e retirou uma amostra de sangue. Uma amostra preciosa, diga-se, já que acusaria a anemia do bebê. O procedimento inédito, realizado em 1983, o mesmo ano em que foi lançada a primeira edição de SAÚDE!, possibilitou, dois anos depois, transfusões de sangue intra-uterinas que salvaram inúmeras crianças. E a ciência deu à luz a uma nova especialidade: a medicina fetal, que hoje trata com sucesso doenças congênitas e até mesmo uma série de malformações dentro do útero da mãe. Os médicos dessa área fazem proezas. Operar bebês de pouco mais de 35 centímetros e meros 700 gramas requer uma precisão inimaginável. “Ela é possível graças ao arsenal de exames de imagem, que agora retratam com nitidez nove entre dez anomalias fetais”, diz a obstetra especialista em medicina fetal Denise Lapa Pedreira, da Universidade de São Paulo. Isso é quatro vezes mais do que os médicos conseguiam enxergar no ultra-som de 25 anos atrás.

“No começo, operávamos a futura criança abrindo a barriga da mãe”, lembra o especialista em medicina fetal Lourenço Sbragia, professor de cirurgia pediátrica da Universidade Estadual de Campinas, no interior de São Paulo. “Mas a tendência é trocar a cirurgia por instrumentos delicadíssimos: os fetoscópios”, diz ele. “Munidos de agulhas e feixes de fibras ópticas, eles alcançam o bebê por um furo mínimo no útero. Com um instrumento desses, corrigimos a hérnia diafragmática congênita, um defeito no músculo do diafragma que levava metade dos portadores à morte prematura”, exemplifica.

 
 
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