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No mundo científico — como divulga outra publicação americana, a Scientific American Mind —, a última de Freud foi congregar na realização de pesquisas turmas que eram até então adversárias, a dos psicanalistas e a dos neurocientistas, aquele pessoal que estuda o sistema nervoso. "Muito do que a neurociência descobre no funcionamento de aspectos cognitivos e emocionais do cérebro está de acordo com questões que Freud já planteou com o instrumental de seu tempo", diz o psicanalista Plinio Montagna, presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia e diretor científico da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. "Sendo assim, conhecimentos neurocientíficos podem auxiliar a compreensão psicanalítica."
O psiquiatra e psicanalista Mário Eduardo Costa Pereira, da Universidade Estadual de Campinas, no interior paulista, acrescenta: "Além da química cerebral, deve-se levar em conta fatores como a linguagem para entender a mente humana. Por isso, os grandes neurocientistas voltam a Freud". Que o diga o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 2000, o austríaco naturalizado americano Eric Kandel, um dos maiores estudiosos dos processos por trás da formação da memória. "A psicanálise ainda é a visão mais coerente e intelectualmente satisfatória da mente", afirmou o laureado. Por que um método que se vale da palavra para ajudar o indivíduo a lidar com o que lhe consome por dentro foi tão revolucionário e perdura até hoje?
"Freud mostrou que havia uma dimensão inconsciente do indivíduo", diz Mário Eduardo Costa Pereira. "Poetas, dramaturgos e filósofos já falavam em psiquismo, mas foi ele que criou uma teoria sobre o assunto, mostrando que se tratava de algo científico", acrescenta a psicanalista Suely Gervetz, de São Paulo. Para Freud, somos movidos por desejos imperceptíveis — essa afirmação foi revolucionária em uma era dominada pela razão suprema. Esses desejos, por sua vez, vêm à tona nos sonhos, lapsos e nos próprios sintomas neuróticos, que são uma expressão do conflito interior.
Em outras palavras, a gente deseja algo, mas lá dentro há um freio que, etica ou moralmente, bloqueia esse anseio. Nos sonhos, o mecanismo de contenção relaxa e essas tendências emergem. A psicanálise seria um acesso a esse universo, graças à livre associação de idéias. Por meio da palavra o paciente é levado a interpretar o disfarce que mascara seu desejo. No final das contas, entra em contato com sua própria verdade. Daí, passa a olhá-la diretamente e a se responsabilizar por ela. É aquela história de arcar com as escolhas que fazemos.
Muito sobre o que Freud teorizou já não vale mais para nossos dias. Crises histéricas, por exemplo, eram o reflexo de uma sexualidade reprimida, algo muito característico de seu tempo. Mas a psicanálise não se tornou estanque. "Até porque ela não é só Freud, assim como a física não é só Newton", diz o psiquiatra e psicanalista Waldo Hoffmann, de São Paulo.
Com o advento de antidepressivos mais eficazes na década de 1990, não era raro ouvir que Freud era coisa do passado. "Psicofármacos não ajudam o indivíduo a se encontrar e se defrontar com suas próprias angústias", diz Plinio Montagna. Hoffmman acrescenta a analogia: "Esses remédios funcionam como uma bóia, impedindo que a pessoa se afogue". É, Freud está mesmo vivíssimo.
SESSÕES FREUDIANAS
É possível imaginar como fazer análise com o seu fundador? "Psicanálise freudiana pura era só a praticada por Freud em sua época", afirma Plinio Montagna. "Hoje qualquer psicanalista está influenciado pelas contribuições à psicanálise que vieram depois dele." Numa sessão freudiana, o indivíduo se deitava no divã de costas para doutor Freud — até para não se distrair com um olhar ou uma expressão do médico. Relaxava e deixava a fala vir à tona espontaneamente. "Até hoje o que interessa não é o enredo, mas uma expressão que se repete", explica Mário Eduardo Costa Pereira. A chave do problema pode estar ali.
UMA BREVE BIOGRAFIA
O neurologista Sigmund Freud nasceu em 6 de maio de 1856 em Freiberg, na Morávia, região à época pertencente ao Império Austríaco — hoje ela se chama Príbor e integra a República Tcheca. Seus estudos médicos tiveram início na Universidade de Viena, em 1873. Uma reviravolta na sua carreira se deu 12 anos depois, quando conviveu em Paris com Jean-Martin Charcot (1825-1893). O trabalho desse psiquiatra francês, que se valia da hipnose em pacientes tidas como histéricas, mostrou ao austríaco que os problemas psicológicos talvez tivessem sua origem na mente, e não no cérebro. A pedra fundamental da psicanálise foi o livro Estudos sobre a Histeria, de 1895, escrito em parceira com o médico Joseph Breuer. Aos 83 anos, Freud morreu em Londres, em 23 de setembro de 1939, de um câncer na região da mandíbula.
PARA LER FREUD Um bom começo, para especialista e leigos, pode ser a célebre biografia Freud - Uma Vida para o Nosso Tempo (Companhia das Letras), do historiador americano Peter Gay. O psiquiatra e psicanalista Mário Eduardo Costa Pereira recomenda também duas obras de autoria do próprio Freud: O Mal-Estar na Civilização (Imago), na qual o autor pensa a relação do insconciente com a cultura, e O Futuro de uma Ilusão, em que desconstrói a religião.
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