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Pela primeira vez o Brasil sedia um evento dessa envergadura. Devem comparecer mais de 10 mil especialistas de 110 países — e a SAÚDE! fará a cobertura on-line do encontro. Não por menos. A oftalmologia auriverde, além de ter avançado em tecnologia, coleciona casos de sucesso em matéria de atendimento em massa. Exemplo disso são os famosos mutirões da catarata — consultas oferecidas em locais públicos para rastrear a doença na qual o cristalino, a lente que capacita nossa visão a fazer zoom, vai se tornando opaco. "Estão copiando nosso modelo no resto da América Latina e no leste europeu", revela Belfort, que também é um dos organizadores do congresso.
Alto — ele deve ter mais de 1,80 metro —, cabelos brancos, expansivo e sempre com um minigravador a tiracolo para registrar algum assunto que não pode cair no esquecimento às vésperas do evento gigantesco, Belfort me conta que o congresso dará ênfase à prevenção da cegueira. Ao folhear um relatório com os dados mais quentes da Organização Mundial da Saúde sobre os problemas visuais no planeta, Belfort chega à página que traz um índice de assustar: estima- se que, em 2020 haverá no mundo 75 milhões de cegos, ou seja, quase a metade de população brasileira. Por falar do nosso quintal, os médicos ainda não são capazes de dizer se estamos tendo cada vez mais problemas visuais, isto é, enxergando menos. Concordam, no entanto, que os avanços na oftalmologia têm permitido um maior número de diagnósticos. E não somente isso. Novos tratamentos têm surgido no horizonte. Um exemplo é o da degeneração macular relacionada à idade, problema que é a terceira maior causa de perda de visão e que até ganhou nova (e mais complicada) nomenclatura. Agora os especialistas passam a chamar esse mal de maculopatia relacionada à idade.
GRANDES ESPERANÇAS
Dê o nome que preferir: o problema em questão é caracterizado pela formação de vasos que invadem toda a região da mácula, área central da retina onde se concentram as células sensíveis à luz conhecidas como cones. Com o estrago, o indivíduo perde gradativamente a capacidade de enxergar e, no início, nem percebe. Isso porque as sombras começam a crescer bem na visão lateral. Até três anos atrás não havia nada o que fazer. A partir daí, o advento da terapia fotodinâmica, técnica que utiliza laser e drogas específicas para desacelerar o crescimento daqueles vasos, trouxe um quê de esperança.
A indústria farmacêutica está investindo pesado na pesquisa de novos medicamentos para frear a evolução da maculopatia. "Descobriu-se recentemente que um remédio indicado para conter o avanço do câncer de cólon e de reto também é benéfico em casos assim", adianta Belfort. Essa droga foi aprovada nos Estados Unidos há apenas dois anos.
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NO CENTRO DO PROBLEMA IMAGEMTXT |
| 1. A mácula é a região mais central da retina, o revestimento no fundo dos olhos. Ela é responsável pela visão central e capta detalhes de todos os objetos na mira do nosso olhar. 2. Com a idade, surgem vasos bem nessa área. Essa invasão não acontece impunemente: os cones são prejudicados de maneira irreversível. Os especialistas estimam que 70% dos casos de cegueira são evitáveis. Sem contar que é possível recuperar até 50% deles |
O pegaptanibe sódico, um dos novos medicamentos para a maculopatia e que foi desenvolvido pelo laboratório Pfizer, já foi aprovado para a comercialização no Brasil e deve ser lançado no segundo semestre deste ano. Ele é injetado diretamente no vítreo, aquela substância gelatinosa que preenche o globo ocular, e as aplicações devem se repetir a cada seis semanas. Dor no olho, queimação e aumento da pressão arterial são alguns de seus efeitos colaterais. Mas por enquanto o efeito adverso mais forte é percebido no bolso: uma única dose chega a custar 1 200 dólares nos Estados Unidos, ou seja, quase 2 700 reais.
Testes com o bevacizumabe, aquele remédio contra tumores eficiente contra a degeneração, já estão sendo realizados em terras brasileiras. "Outro recurso é a aplicação de cortisona no vítreo com o objetivo de diminuir parte do processo inflamatório", diz Newton Kara José, oftalmo e professor da Universidade de São Paulo e da Estadual de Campinas, no interior paulista. "No entanto, mesmo com os avanços, ainda não há um tratamento 100% eficaz", deixa claro o oftalmologista Ricardo Uras, da Universidade Federal de São Paulo.
Os oftalmologistas vêm registrando vitórias em várias outras frentes. É o caso da catarata. O último triunfo nesse campo de batalha foi o surgimento das lentes intraoculares multifocais, que são implantadas no lugar do cristalino opaco, o culpado pela visão embaçada. "Essas lentes possuem vários eixos ópticos", conta o oftalmologista Eduardo Soriano, também da Unifesp. Em outras palavras, permitem que o paciente volte a enxergar de perto e de longe. Antes de seu aparecimento, o indivíduo precisava de óculos após a cirurgia, ou então cada olho era ajustado para uma distância. "O obstáculo é que às vezes a lente intra-ocular não fica na posição adequada. Se isso acontece, a visão fica dupla ou enxerga-se tudo torto, o que nos obriga a realizar uma nova cirurgia." De qualquer forma, as novas lentes provocam mais alegrias do que problemas.
"A cirurgia de catarata é um dos procedimentos mais difíceis de aprender", reconhece o oftalmologista Yoshifumi Yamane, presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia. Não à toa. Os cortes na córnea são mínimos, com cerca de 3 milímetros. "Com isso as complicações diminuíram. Mas, se por um lado a operação se tornou menos agressiva, ela também ficou mais complexa", resume Newton Kara José.
OFUSCADOS PELO SOL
Veja como a radiação ultravioleta pode provocar sérios danos para a visão
| IMAGEMTXT | 1. Os raios ultravioleta lesam ainda os cones, células fotossensíveis que se encontram na mácula, no centro da retina. Isso é um estímulo e tanto para a maculopatia. |
| 2. Como a córnea absorve os raios solares, a exposição excessiva a eles sem a devida proteção provoca, literalmente, pequenas queimaduras nessa lente. | IMAGEMTXT | |
| 3. Já na conjuntiva, a membrana que envolve o branco dos olhos, pode ocorrer degeneração. Surge uma área vermelha conhecida como pterígio. | IMAGEMTXT | |
| 4. A radiação também age nas camadas finas do cristalino, acelerando seu processo de opacificação. Daí que favorece a catarata. | IMAGEMTXT |
O PERIGO VEM LÁ DE CIMA
Uma medida simples evitaria — ou ao menos retardaria — o avanço tanto da maculopatia quanto da catarata: usar óculos escuros com filtro ou mesmo um boné para proteger os olhos da luz solar. "A ação dos raios ultravioleta no cristalino favorece o aparecimento precoce desses males", explica Yamane (veja o infográfico acima, à direita). "Além dos óculos, já existem lentes de contato com proteção UV", revela Élcio Sato, oftalmo do Instituto Paulista de Oftalmologia Especializada, em São Paulo.
Os oftalmologistas buscam também um tratamento capaz de dar conta de um problema que acomete muita gente depois dos 40: a presbiopia, a popular vista cansada. O olho humano foi projetado para funcionar plenamente até a quarta década de vida — pensando bem, nossos antepassados não viviam muito mais do que isso, então nem reclamavam do tal cansaço. Por trás dele existe um endurecimento das fibras do cristalino. Enrijecido, ele perde a capacidade de dar aquele zoom na imagem. "A presbiopia é uma epidemia", diz Elcio Sato. "Há bilhões de pessoas à espera de uma cirurgia para esse mal", diz Newton Kara José. Porque, óbvio, as pessoas hoje vivem bem além dos 40 e reclamam quando não enxergam de perto.
Um software é uma das novidades nessa seara. Ele programa um laser para moldar a região central da córnea, de tal maneira que ela passa a ajudar quem precisa ver melhor de perto. Já as laterais dessa lente são trabalhadas para a visão de longe. "Essa cirurgia é indicada para quem tem até 4 graus de hipermetropia e de 2 a 3 de presbiopia", diz o oftalmologista Cláudio Lottenberg, do Hospital Albert Einstein, que está trazendo esse recurso para o Brasil. Porém, há certo ceticismo em relação a cirurgias para presbiopia. "Não há muita certeza sobre sua eficácia", declara Newton Kara José. "E ainda não existe nenhum remédio para presbiopia", sentencia seu colega Rubens Belfort.
VEJA BEM
Já as operações para desvios de refração como a miopia (dificuldade para ver objetos distantes), hipermetropia (é o oposto da miopia) e astigmatismo (é um mix dos outros dois males) estão cada vez mais seguras (veja o quadro ao lado). "Graças a exames que analisam a superfície e a espessura da córnea, há um risco muito menor de complicações", diz o oftalmologista Alfredo Tranjan Neto, de São Paulo. Mesmo com toda evolução da oftalmologia, vale seguir alguns conselhos. Depois dos 40, meça anualmente a pressão dos olhos para checar se não há um glaucoma à vista, outra importante causa de cegueira. E lembre-se: controlar as taxas de açúcar no sangue não só evita o diabete, mas também suas complicações, como a retinopatia diabética, que arrasa a visão. Tudo para continuar enxergando bem e por muito tempo.
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NO FUNDO DO OLHO |
O PODER DAS CÉLULAS-TRONCO
Pesquisadores da Unifesp desenvolveram um novo método de emprego dessas células — como regeneram tecidos, são usadas há algum tempo em problemas como queimadura na córnea. No procedimento tradicional as células-tronco do limbo — região entre a córnea e a conjuntiva, a membrana que reveste o branco dos olhos — eram obtidas de um doador e transplantadas para o paciente. "Agora retiramos uma pequena quantidade de células, de 1 a 2 milímetros quadrados, e as cultivamos em laboratório", explica o oftalmo José Álvaro Pereira Gomes. Assim necessita-se de menos células do doador e do próprio indivíduo. Depois de duas a três semanas, quando já estão crescidas, aí, sim, elas são implantadas.
SEM DESVIOS
Conheça as duas principais técnicas cirúrgicas que se valem do laser para corrigir a miopia, o astigmatismo e a hipermetropia. Qualquer uma delas só pode ser realizada em pacientes acima de 21 anos e com o grau estabilizado
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PRK |
LASIK | |||
| MÉTODOS | Trata-se de uma técnica mais simples na qual o laser é aplicado diretamente na superfície da córnea. É indicado para quem tem até 4 graus de miopia, astigmatismo e hipermetropia. | Aqui o cirurgião faz um retalho no epitélio, tecido que reveste a córnea, para moldar essa lente com o laser. | ||
| COMPARAÇÃO | Por ser aplicado diretamente na superfície da córnea, provoca mais dor. Depois da cirurgia, o paciente deve usar uma lente por dois dias até que o epitélio se reconstitua. | A sensação de dor é menor, sem contar que a recuperação é muito rápida. | ||
| INDICAÇÕES | Em geral é indicado para quem tem até 4 graus de um dos desvios de refração. | Os indivíduos com até 8 graus podem se submeter à técnica. |
MAIS AUTO-ESTIMA
IMAGEMTXTEspecialistas de Goiás desenvolveram uma técnica para as pessoas que perderam a visão e que, por causa disso, apresentam alterações estéticas na cor e no volume dos olhos. Trata-se da cirurgia de expansão do globo ocular. "Sua vantagem sobre o procedimento tradicional é a de que ela permite que o olho volte ao seu tamanho normal, preservando seus movimentos", explica o oftalmologista Fernando Pacheco Veríssimo, que vem realizando a operação com sucesso. Para isso introduz-se no globo uma esfera acrílica de 22 a 24 milímetros. A cor do olho é recuperada por meio de tatuagem na córnea ou com lentes de contato. No final, é claro, eleva-se a auto-estima do paciente.
O EFEITO PC
Ficar muito tempo em frente à tela do computador pode estar associado a casos de miopia transitória — nesse caso, o cristalino fica mais acomodado devido ao excesso de esforço para enxergar de perto. Foi o que mostrou um levantamento do Instituto Penido Burnier, em Campinas, no interior paulista. O trabalho analisou 1, 2 mil indivíduos, entre eles 320 crianças, que ficam em frente ao micro até 14 horas por dia. Nos resultados finais constatou-se que 30% dos pequenos sofriam de miopia transitória e 21% de miopia mesmo, número 9% maior do que o índice registrado em meninos e meninas pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia. "Ainda não é possível estabelecer uma relação direta entre a maior incidência do problema e o uso do computador", reconhece Leôncio Neto, autor do estudo. Ainda assim, cá entre nós, sempre é bom maneirar.





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